domingo, 28 de julho de 2013

Dissertação acerca do preço dos bolos

Ultimamente tenho lido tudo o que apanho sobre como calcular o preço a cobrar por um bolo decorado com pasta de açúcar. Mas nem por isso consegui ainda chegar a uma fórmula infalível que resolva de uma vez todas as minhas dúvidas acerca deste assunto.
De facto trata-se de algo complexo porque há mil e uma maneiras de fazer os cálculos... e nenhuma delas me convence plenamente.
Será que o problema é meu? Acho sinceramente que não e que muita gente se questiona também sobre o mesmo.
Há quem venda bolos ao quilo, ao número de fatias, de acordo com o número de modelagens, de acordo com o número de cores utilizadas, orçamentando cada projecto individualmente... enfim, já li de tudo!
Pessoalmente concordo mais com a última hipótese, que é aquela que sigo e tento melhorar a cada bolo.
Mesmo assim, num mercado com cada vez mais oferta, torna-se difícil praticar o preço justo por cada trabalho.
Vou partilhar convosco a minha experiência pessoal.
Faço bolos ainda nem há um ano (não estou a contar com os de consumo interno).
Mas quando o bichinho me mordeu decidi logo procurar formação qualificada, porque se era para aprender então que fosse como deve ser! Sempre pensei assim em todas as áreas da minha vida: se é para fazer que seja bem feito! Sou sim uma perfeccionista, com tudo o que isso tem de bom e de mau!
Fiz um curso Wilton com a Sónia Azóia e um PME com a Carina Costa. Depois disso, tendo já as bases, fiz alguns workshops de modelagem com a Margarida Duarte para aperfeiçoar a figura humana - a minha maior dificuldade ainda hoje - e mais recentemente a fabulosa master class da Kaysie Lackey.
Se há um ano atrás me tivessem dito que iria chegar a este nível num tão curto espaço de tempo, não acreditaria. 
Pessoalmente sinto-me muito realizada a decorar bolos e embora tendo consciência de que tenho muito por onde melhorar, considero que evoluí bastante. E se em parte li muitos livros, fiz muita pesquisa e muitas experiências sozinha, também é verdade que a formação fez toda a diferença! E isto leva-nos ao primeiro ponto de interrogação: quanto pesa num orçamento o investimento feito na formação? Esta é uma das perguntas a que ainda não consegui responder.
Sinto-me confortável a fazer um bolo redondo, quadrado, esculpido (que adoro), de vários andares, e recebo sempre cada pedido com entusiasmo. No entanto, também aqui há diferenças: um bolo esculpido deve ser mais caro que um bolo normal? Creio que há unanimidade ao responder que sim, porque se gastam mais horas a esculpir um bolo do que a desenformá-lo. 
Actualmente recebo diariamente vários pedidos de orçamento para bolos de aniversário. Posso dizer-vos que são muito poucos aqueles que se formalizam em encomenda e eu garanto-vos que muitas vezes até fecho os olhos a umas horitas de trabalho. Ou porque são amigos e eu gostava mesmo de lhes fazer o bolo ou porque é algo que tenho vontade de experimentar e então "que se lixe" vou arredondar para baixo... Sei que é um erro e que não devo fazê-lo porque as pessoas ficam com uma ideia errada acerca do preço real do bolo e no futuro irão sempre fazer comparações. Tenho consciência disso mas mesmo assim acabo por fazê-lo.
E depois ainda há outra questão, é que quando faço um orçamento que se traduz em encomenda, por vezes o resultado final não coincide com o esboço inicial. Seja porque me dão liberdade total e eu me entusiasmo e vou por aí fora a acrescentar pormenores até ficar satisfeita, ou porque a certa altura há uma alteração que tem mesmo de ser feita. O que fazer nestes casos? Depois de dar um orçamento não posso chegar ao fim, pedir desculpa e dizer que afinal o preço é outro. 
Também o inverso não me deixa confortável: fazer um bolo sem orçamento e apresentar o preço no final. 
Há quem prefira assim - e eu, para ser sincera, até gosto mais porque posso criar à vontade e sem limitações - mas fico sempre constrangida na hora de apresentar a conta porque nessa altura a pessoa não vai poder dizer se concorda ou não e eu entretanto já ali tenho o bolo. E mais uma vez a solução encontrada muitas vezes é cortar numas horitas para não chocar tanto.
Não posso cortar no preço dos ingredientes, dos acessórios, dos custos inerentes à produção do bolo, mas no meu trabalho, nas horas de dedicação posso e faço-o. E quem me conhece e já me pediu trabalhos sabe que faço cada bolo como se fosse para um dos meus filhos. Com todo o amor!
É por estas e por outras que muitas vezes, num bolo de 60€ o meu lucro são 15€. E eu sei que não pode ser, e que isso não paga as noites em claro a ouvir os comentários ao European poker tour (porque a minha televisão da cozinha está sem comando e os canais que prestam estão lá para a posição quarenta e muitos e perco muito tempo a procurá-los) ou as horas gastas em pesquisa por exemplo, mas se cobrar o que deve ser então o mesmo bolo chegaria no mínimo aos 90€. 
Dá para ver a diferença não é?
Não vou falar de nenhum bolo em concreto pois não seria correcto mas posso dar o exemplo do bolo da Cuca, que ofereci com todo o carinho à minha amiga Ana (que merece isso e muito mais, que amizades verdadeiras hoje em dia são difíceis de manter)! Contas feitas por alto, porque não as fiz com rigor, seria um bolo para custar cerca de 110€. Quantos de vós estariam dispostos a comprá-lo? (Espero os vossos comentários sinceros). 
A verdade é que a maioria das pessoas que pede um bolo destes personalizado não tem a mínima noção do trabalho que dá fazê-lo. Porque vão ao hipermercado e há bolos a 15€ ou porque no espaço escolhido para a festa de aniversário do filho(a) "oferecem" o bolo.
Compreendo que há uma grande diferença entre pagar 15€ ou 90€ por um bolo mas as pessoas também têm de compreender a diferença que isso representa ao nível da qualidade, personalização, etc.
Por outro lado, há muitas pastelarias (sublinho desde já que não são todas) que sem qualquer problema pegam num bolo que está na vitrina há vários dias, raspam o creme que o cobre e voltam a cobri-lo e vendem-no sem qualquer problema ao cliente que pensa que está a comprar um bolo fresquinho! Se não sabiam ficam a saber. 
Este texto tornar-se-ia muito longo se continuasse a esmiuçar todos os pontos que considero necessários debater por isso hoje fico-me por aqui.
Mas queria apenas deixar o meu testemunho para que percebam que isto de fazer bolos não é algo tão simples como pode parecer. Pelo menos para quem quer fazê-los com rigor e seriedade.
Hei-de fazer bolos toda a minha vida, não tenham dúvidas. Mas quanto a vendê-los talvez tenha os dias contados.
Bom domingo!

1 comentário:

Cartuxa disse...

~Compreendo muito bem...revi-me neste post! passo a vida a ouvir dizer: fazes isto tão bem, podias vender! Mas a falta de jeito que eu tenho para vender é tal, que parece que peço desculpa por lhes estar a cobrar, seja pelo que for!E assim que faço um desconto, que fecho os olhos a umas horitas de trabalho, é inevitável a comparação... Se calhar deviamos ambas procurar um amigo com jeito para o negócio, daqueles que vendem pentes aos carecas, e deixa-lo tratar disso, mesmo que lhe dessemos uma comissão por cada bolo/objeto vendido... às tantas, até vale a pena!Não trabalhamos propriamente para aquecer...