Ultimamente tenho lido tudo o que apanho
sobre como calcular o preço a cobrar por um bolo decorado com pasta de açúcar.
Mas nem por isso consegui ainda chegar a uma fórmula infalível que resolva de
uma vez todas as minhas dúvidas acerca deste assunto.
De facto trata-se de algo complexo porque
há mil e uma maneiras de fazer os cálculos... e nenhuma delas me convence
plenamente.
Será que o problema é meu? Acho
sinceramente que não e que muita gente se questiona também sobre o mesmo.
Há quem venda bolos ao quilo, ao número de
fatias, de acordo com o número de modelagens, de acordo com o número de cores
utilizadas, orçamentando cada projecto individualmente... enfim, já li de tudo!
Pessoalmente concordo mais com a última
hipótese, que é aquela que sigo e tento melhorar a cada bolo.
Mesmo assim, num mercado com cada vez mais
oferta, torna-se difícil praticar o preço justo por cada trabalho.
Vou partilhar convosco a minha experiência
pessoal.
Faço bolos ainda nem há um ano (não estou
a contar com os de consumo interno).
Mas quando o bichinho me mordeu decidi
logo procurar formação qualificada, porque se era para aprender então que fosse
como deve ser! Sempre pensei assim em todas as áreas da minha vida: se é para
fazer que seja bem feito! Sou sim uma perfeccionista, com tudo o que isso tem
de bom e de mau!
Fiz um curso Wilton com a Sónia Azóia e um
PME com a Carina Costa. Depois disso, tendo já as bases, fiz alguns workshops
de modelagem com a Margarida Duarte para aperfeiçoar a figura humana - a minha
maior dificuldade ainda hoje - e mais recentemente a fabulosa master class da
Kaysie Lackey.
Se há um ano atrás me tivessem dito que
iria chegar a este nível num tão curto espaço de tempo, não acreditaria.
Pessoalmente sinto-me muito realizada a decorar bolos e embora
tendo consciência de que tenho muito por onde melhorar, considero que evoluí
bastante. E se em parte li muitos livros, fiz muita pesquisa e muitas
experiências sozinha, também é verdade que a formação fez toda a diferença! E
isto leva-nos ao primeiro ponto de interrogação: quanto pesa num orçamento o
investimento feito na formação? Esta é uma das perguntas a que ainda não
consegui responder.
Sinto-me confortável a fazer um bolo
redondo, quadrado, esculpido (que adoro), de vários andares, e recebo sempre cada pedido com
entusiasmo. No entanto, também aqui há diferenças: um bolo esculpido deve ser
mais caro que um bolo normal? Creio que há unanimidade ao responder que sim, porque
se gastam mais horas a esculpir um bolo do que a desenformá-lo.
Actualmente recebo diariamente vários
pedidos de orçamento para bolos de aniversário. Posso dizer-vos que são muito
poucos aqueles que se formalizam em encomenda e eu garanto-vos que muitas vezes
até fecho os olhos a umas horitas de trabalho. Ou porque são amigos e eu
gostava mesmo de lhes fazer o bolo ou porque é algo que tenho vontade de experimentar
e então "que se lixe" vou arredondar para baixo... Sei que é um erro
e que não devo fazê-lo porque as pessoas ficam com uma ideia errada acerca do
preço real do bolo e no futuro irão sempre fazer comparações. Tenho consciência
disso mas mesmo assim acabo por fazê-lo.
E depois ainda há outra questão, é que
quando faço um orçamento que se traduz em encomenda, por vezes o resultado
final não coincide com o esboço inicial. Seja porque me dão liberdade total e
eu me entusiasmo e vou por aí fora a acrescentar pormenores até ficar
satisfeita, ou porque a certa altura há uma alteração que tem mesmo de ser
feita. O que fazer nestes casos? Depois de dar um orçamento não posso chegar ao
fim, pedir desculpa e dizer que afinal o preço é outro.
Também o inverso não me deixa confortável:
fazer um bolo sem orçamento e apresentar o preço no final.
Há quem prefira assim - e eu, para ser
sincera, até gosto mais porque posso criar à vontade e sem limitações - mas
fico sempre constrangida na hora de apresentar a conta porque nessa altura a
pessoa não vai poder dizer se concorda ou não e eu entretanto já ali tenho o
bolo. E mais uma vez a solução encontrada muitas vezes é cortar numas horitas
para não chocar tanto.
Não posso cortar no preço dos
ingredientes, dos acessórios, dos custos inerentes à produção do bolo, mas no
meu trabalho, nas horas de dedicação posso e faço-o. E quem me conhece e já me
pediu trabalhos sabe que faço cada bolo como se fosse para um dos meus filhos. Com todo o amor!
É por estas e por outras que muitas vezes,
num bolo de 60€ o meu lucro são 15€. E eu sei que não pode ser, e que isso não
paga as noites em claro a ouvir os comentários ao European poker tour (porque a
minha televisão da cozinha está sem comando e os canais que prestam estão lá
para a posição quarenta e muitos e perco muito tempo a procurá-los) ou as horas
gastas em pesquisa por exemplo, mas se cobrar o que deve ser então o mesmo bolo
chegaria no mínimo aos 90€.
Dá para ver a diferença não é?
Não vou falar de nenhum bolo em concreto
pois não seria correcto mas posso dar o exemplo do bolo da Cuca, que ofereci
com todo o carinho à minha amiga Ana (que merece isso e muito mais, que amizades verdadeiras hoje em dia são difíceis de manter)! Contas feitas por alto,
porque não as fiz com rigor, seria um bolo para custar cerca de 110€. Quantos
de vós estariam dispostos a comprá-lo? (Espero os vossos comentários sinceros).
A verdade é que a maioria das pessoas que
pede um bolo destes personalizado não tem a mínima noção do trabalho que dá
fazê-lo. Porque vão ao hipermercado e há bolos a 15€ ou porque no espaço
escolhido para a festa de aniversário do filho(a) "oferecem" o bolo.
Compreendo que há uma grande diferença
entre pagar 15€ ou 90€ por um bolo mas as pessoas também têm de compreender a
diferença que isso representa ao nível da qualidade, personalização, etc.
Por outro lado, há muitas pastelarias
(sublinho desde já que não são todas) que sem qualquer problema pegam num bolo que está
na vitrina há vários dias, raspam o creme que o cobre e voltam a cobri-lo e
vendem-no sem qualquer problema ao cliente que pensa que está a comprar um bolo
fresquinho! Se não sabiam ficam a saber.
Este texto tornar-se-ia muito longo se
continuasse a esmiuçar todos os pontos que considero necessários debater por
isso hoje fico-me por aqui.
Mas queria apenas deixar o meu testemunho
para que percebam que isto de fazer bolos não é algo tão simples como pode
parecer. Pelo menos para quem quer fazê-los com rigor e seriedade.
Hei-de fazer bolos toda a minha vida, não
tenham dúvidas. Mas quanto a vendê-los talvez tenha os dias contados.
Bom domingo!
1 comentário:
~Compreendo muito bem...revi-me neste post! passo a vida a ouvir dizer: fazes isto tão bem, podias vender! Mas a falta de jeito que eu tenho para vender é tal, que parece que peço desculpa por lhes estar a cobrar, seja pelo que for!E assim que faço um desconto, que fecho os olhos a umas horitas de trabalho, é inevitável a comparação... Se calhar deviamos ambas procurar um amigo com jeito para o negócio, daqueles que vendem pentes aos carecas, e deixa-lo tratar disso, mesmo que lhe dessemos uma comissão por cada bolo/objeto vendido... às tantas, até vale a pena!Não trabalhamos propriamente para aquecer...
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