Fui operada e muita gente me perguntou porquê. Decidi
escrever este texto como forma de alerta para quem, (como eu fiz), ignora que
tem um problema de saúde.
Para aqueles que não vão ler até ao fim, descanso-vos e
garanto que não se trata de nada grave e que, em parte, já está resolvido. De
qualquer forma é um alerta, para que todos “percamos” um pouco do nosso
precioso tempo para olharmos para o nosso corpo.
Acho que já escrevi aqui algumas vezes sobre o quão
assoberbada vivo e, se não o escrevi, pensei escrevê-lo muitas vezes.
Adoro a minha vida na sua essência, mas a verdade é que os
planos me saíram todos furados e tenho mesmo uma vida complexa. Como tantas
outras mulheres tenho dois filhos para educar, uma casa para gerir, um marido
diariamente ausente com quem não posso dividir tarefas, um trabalho (ainda que
não seja certo), frequento o ensino superior (com aulas a terminar às 20h) e
cumpro um estágio durante a manhã.
Vem isto a propósito da falta de tempo para mim; é neste
ponto que tudo começa.
Desde o nascimento do Dinis, agora com 4 anos, que posso
afirmar com toda a segurança que deixei de olhar para mim. Literalmente.
Primeiro porque depois de ter um bebé o corpo leva o seu tempo a voltar ao
normal e não era algo que fosse particularmente apelativo para me demorar
frente ao espelho. Depois porque durante esses primeiros meses há muita coisa a
acontecer fora de nós e a que temos de dar resposta, e para onde direccionamos o
nosso foco. Principalmente quando já existe outra criança, como era o caso.
Dia a dia fui sendo engolida pela centrifugadora que é a
minha vida, procurando não falhar em nenhum dos meus papéis. Muitas vezes ainda
sinto que aqueles primeiros minutos depois de deitar os meus filhos são o meu
momento de vir à tona da água encher os pulmões de ar. (Durante o dia amiúde sinto-me
asfixiar.) Depois há que preparar o dia seguinte.
Apesar de tudo, tudo o que não cabe aqui mas que me
preencheu por inteiro – e quantas vezes transbordou - tive sempre o cuidado de
não faltar a nenhuma consulta ginecológica, de fazer a mamografia e as análises
anuais e isso bastava para ficar descansada.
Mas não olhava para mim. Não olhava.
Saía do banho e vestia-me à pressa porque realmente a minha
prioridade passou a ser não desperdiçar tempo; todos os minutos foram
verdadeiramente importantes para conseguir responder a todas as solicitações.
Explicado o contexto, acrescento que o meu filho é uma coisa
doce, doce, doce, e que adora dar-me beijos na barriga. Este Verão, os beijos
dele começaram a incomodar-me. Disse ao Rui que depois das férias ia falar com
a médica e pedir uma opinião sobre a minha barriga. Não podia ser normal que
apesar do esforço não conseguisse reduzir o volume e depois havia aquele umbigo
deformado que me fez passar a usar fato de banho na praia.
E porque o universo nos envia sinais (basta estarmos alerta
e saber interpretá-los), no dia em que marquei a minha consulta abri o facebook
e apareceu-me um post num grupo de mães, escrito pela Rita Mendes (http://barrigamendinha.sapo.pt/porque-tenho-afinal-eu-a-barriga-404271).
Não me recordo mas o título devia ser sugestivo porque me fez clicar para ler o
texto. Li e reli e tive a certeza: Eu tenho isto! Tudo bem explicadinho, com
imagens e termos técnicos.
Por isso, quando chegou o dia da consulta já sabia o que
perguntar e a médica confirmou-me logo que tinha uma hérnia umbilical. A minha
resultou, muito provavelmente, das gravidezes, já que os meus bebés eram muito grandes.
Só depois dos exames todos que fiz fiquei a saber que, para
além da hérnia, tenho também uma diastase do recto abdominal (bastante grande), ou
seja, não tenho músculo na parte frontal da barriga.
Os médicos decidiram que era arriscado fazer tudo numa só cirurgia
e por isso desta vez tratámos apenas a hérnia.
Mas para mim, em todo o processo que precedeu a cirurgia, o
momento que fica, que me choca, que me faz pensar, é aquele em que o cirurgião,
sentado à minha frente, me pergunta há quanto tempo tenho eu o umbigo assim e
eu não sei responder.
“Não sabe? Mas quando é que reparou nisto?”
“Não sei doutor. Muito provavelmente está assim desde o
nascimento do meu filho, mas só agora é que me começou a incomodar.”
E a vergonha que eu senti ao admitir isto mesmo; ao admitir
que não tenho tempo para olhar para o espelho e saber identificar algo
diferente no meu corpo.
Muito embora a maioria das minhas amigas se cuide muito mais
do que eu, imagino que não seja a única que repara apenas na pele que fica
descoberta no Verão. Por isso acredito que faz sentido este texto. Da mesma
forma que aquele post lido em Junho me ajudou, pode ser que eu consiga também ajudar
alguém.
Neste caso concreto foi uma hérnia mas podia ser um sinal (e também tenho tantos para ir ver), uma mancha na pele, enfim, qualquer coisa diferente. Estejam alerta.

2 comentários:
As melhoras, Joaninha.
Dizes tanto neste texto...
Olhar e cuidar de nós faz parte do nosso papel de mães também. É difícil mas não podemos esquecer.
Beijinho grande
Obrigada Mary.
E eu tenho espreitado, não tanto como gostaria, o que escreves e admiro muito o que estás a conseguir fazer enquanto mãe (refiro-me à coragem de os teres numa escola pública, de cortares com o açúcar nos lanches escolares - já nem falo em casa! - entre outras coisas). Parabéns!
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