No final do mês de Setembro formalizei a minha candidatura a ama na Santa Casa da Misericórdia do Seixal.
Já sabia ao que ia porque conhecia a legislação em vigor - que, pasme-se, é a mesma desde 1984(!) - mas aproveitei para esclarecer algumas dúvidas que ainda persistiam numa curta reunião com a educadora responsável pelo recrutamento e acompanhamento das amas.
Mas saí de lá mais triste do que entrei, com as convicções bastante abaladas, porque sendo esta uma actividade prestada ao Estado, o nosso Estado trata muito mal as pessoas que, no fundo, o que querem é ajudar a criar crianças com amor, atenção, acolhendo-as na sua casa e oferecendo um ambiente muito mais caloroso e personalizado do que um berçário ou creche.
Não sou ingénua e sei que nem todas as candidatas terão as mesmas motivações mas na minha opinião, caberia depois aos profissionais competentes - psicólogos, talvez - separar o trigo do joio.
Para quem não sabe, as amas são recrutadas e depois submetidas a um período de formação/ período experimental de trabalho com crianças, sob a orientação de um técnico, por um período de dois meses, numa instituição pública ou privada (este trabalho não é remunerado).
Só depois, e se obtiverem avaliação positiva, passam à fase seguinte, que é a da avaliação das condições da habitação e do agregado familiar.
Desde que se candidatam até que começam a trabalhar podem passar, no minimo, cerca de quatro meses, entre avaliações da Segurança Social e outras. Mas pode demorar mais tempo.
E porque há quem pense que ser ama é apenas receber umas crianças em casa e pô-las em frente à televisão, devo dizer que as amas têm um programa para seguir, cumprem procedimentos e contam sempre com o apoio técnico da Instituição de Enquadramento (isto na teoria porque eu não tenho experiência prática nesta matéria).
Mas se analisarmos o lado mais prático da questão, saltam à vista a qualidade das condições que são dadas a estas mulheres, e que me foram apresentadas:
- No máximo, as amas podem receber 4 crianças. Mas podem ter menos.
Assim, se tiverem 4 crianças a seu cargo, recebem cerca de 750,00€.
Mas se tiverem, por exemplo, apenas duas, recebem cerca de 250,00€ porque as duas primeiras crianças "valem" pouco mais de 100,00€ cada, e só a terceira e quarta são pagas perto dos 200,00€.
A estes valores aplicam-se depois os descontos, pelo que podem ver a "miséria" que se recebe por um trabalho com esta complexidade (só quem não tem filhos é que pode pensar que tomar conta de crianças é "pêra doce"!).
- O horário de trabalho é das 7:00 às 18:30h. Ou seja, são onze horas e meia de trabalho, sem intervalo.
Um trabalho de extrema responsabilidade e exigência, que inclui, a partir dos 12 meses da criança, a confecção das refeições pela ama, de acordo com uma ementa elaborada por uma nutricionista ao serviço da instituição de enquadramento.
- A ama trabalha a recibos verdes. Por isso, não conta com nenhuma protecção no trabalho, apesar de trabalhar para o Estado, quase doze horas por dia.
O próprio Estado compactua com estes falsos recibos verdes há mais de duas décadas!
- Durante as horas em que as crianças estão na Ama, não pode haver circulação de pessoas na casa. Isto inclui marido e filhos da Ama.
São aceites excepções, uma vez por outra, mas se persistir, e coincidir com as visitas de avaliação (que são feitas de surpresa), podemos ter de encerrar a actividade.
Assim, teria que pôr os meus filhos fora de casa antes das 7:00 e recebê-los apenas às 19h. Isso faria de mim uma excelente ama, com certeza, mas uma péssima mãe.
Para além disto, estamos sujeitas a receber todo o género de pessoas em nossa casa. Desde pais amorosos, cuidadosos e civilizados, a pais negligentes e problemáticos.
As férias são outro problema porque muitas vezes os pais estão de férias e levam na mesma os meninos para a ama para estarem libertos. Não há nada que os impeça de o fazer, mas com certeza a criança beneficiaria em passar algum tempo com os pais e a ama poderia ficar mais liberta.
Durante o tempo que durou a minha reunião/ entrevista, assisti a várias chamadas de pais para a educadora, fazendo queixas das respectivas amas dos seus filhos. E constatei que a ama é sempre a culpada de tudo o que não está bem. Mesmo que não seja:)
Por tudo isto pergunto-me se valerá a pena.
Estou sem emprego, adoro bebés e crianças e adorava trabalhar directamente com elas, mas também tenho dois filhos que precisam de mim e da minha dedicação durante o tempo em que estão em casa (antes e depois da escola) e não posso nem quero abdicar do bem estar e felicidade da minha familia.
No final, fica a frustração de saber que seria possivel conciliar tudo. Bastava que os senhores governantes pegassem nesta lei e a revissem.
Por favor façam-no. Pelo bem das crianças, principalmente.
Porque como está, afasta quem tem motivação e vontade, chamando apenas quem tem muita necessidade.
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