
Quando eu era pequena, e pelo menos até aos meus 10 anos (acho eu), os meus pais não me deixavam escolher os sapatos que calçava.
Nesses tempos não havia muita fartura (agora pareço a minha avó a falar) e por estação tinha apenas um par de sapatos, que tinha que ser estimado! E eu estimava.
Durante alguns anos andei com aquelas botas ortopédicas muito feias, mas não me importava nada porque ainda não tinha grande consciência estética.
Depois, a partir de certa altura lembro-me de ver as minhas amigas na escola com sapatos muito giros, lembro-me da moda das "colibris", umas sandálias de plástico que andavam nos pés de toda a gente.
Foi preciso muita coragem para pedir aos meus pais umas "colibris" mas de nada adiantou. Não podia ser.
Foi um grande desgosto mas eu lá me conformei.
Não era de facto uma criança pedinchona e também não manifestava muito o meu pesar pelas contrariedades, por isso acho que os meus pais nunca se terão apercebido realmente da minha infelicidade. Sempre fui muito compreensiva.
Agora que sou mãe, acho que projecto um pouco na minha filha os desejos que tive enquanto criança. Embora por vezes saia da loja um pouco contrariada (eu, não ela!), deixo-a opinar.
Um destes dias fomos comprar uns "crocs" porque os do ano passado obviamente já não lhe serviam.
- A ideia - disse eu ao pai a caminho da loja - é escolher uma cor unisexo, excepto cor-de-laranja (porque as do ano passado eram cor-de-laranja).
Pois muito bem, assim que se viu na loja a Maria boicotou todas as nossas escolhas e decidiu-se por este modelo (feio, feio, feio) da Dora.
Ainda tentei vetar mas o meu marido olhou para mim e nem foi preciso dizer mais nada.
Havia de o dizer depois no regresso a casa:
-Então tu queixas-te que não te deixavam escolher as tuas coisas em criança e depois queres fazer o mesmo à tua filha? Se os sapatos são para ela, então que seja ela a escolhê-los!
E assim foi!
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